As asas vêm de dentro

Há clarões de razões que fazem calar… O que lhe falta em dizer, não falta em sentir. O seu pensamento sempre foi discorrido, um vagabundo na rua das palavras. O verbo é doutrina e nele o verbo é louco mas convicto nas suas ficções, alimenta-as todos os dias ao acordar. Fez-se à estrada, despido de tudo o que aguarda o tempo para acontecer. Dois pés de rebeldia e uma bússola na mão. Queria aprender a rota da alma, queria entrar nas vielas mais estreitas, nos becos mais escuros, queria saber de si.

A meio da rua, olhava os pássaros com inveja, até descobrir que as asas vêm de dentro.

Segue descaído nos becos de ontem, à deriva nas calhas do presente. Erguido a pulso pelas avenidas do incerto, vai de braço dado com o abismo. Foi talhado nas pedras da calçada e lascou, moldado pelo caminho que percorreu, a sua viagem e o que lhe sobreviveu.

Pesa-lhe no peito a vida… ou é o peito que pesa a vida nele?

Fez-se senhor em terras de ninguém. Lá, no desassossego depois da superfície, onde a consciência adensa as sensações, afundou-se e morreu para o resto que não sente. O seu mundo é um desenho negligente, irregular nos traços de carvão extraído do vale de Éter. Herói de todos os contos que traz escritos na pele, a sua história é uma intersecção de linhas retas de obliteração e curvas agudas de exalação. Algumas são arquiteturas fabulosas, a rebentar de memórias coloridas, outras são recordações afiadas das suas múltiplas quedas.

Ele, em todas.

É sedimento aglutinador de tudo o que tocou. Vai soprando os dias ao ritmo do batimento cardíaco. Nulo ou desmedido, nunca moderado. Inabalável, intenso. Correu o infinito a pé e descalçou a tinta seca das páginas antigas.

As pessoas são histórias para viver.

É rascunho. Fugitivo da régua e esquadro, a mão livre abriu-lhe um céu, fez-lhe um rosto, deu-lhe tons de fogo. E eu nasci.

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