Anatomia de uma ficção: Carne

Abro as cortinas de uma vida desordenada. Aqui, prostrado nos vícios da carne, pergunto-te: com quantos corpos se dilacera uma alucinação? Com quantas bocas se mitiga uma miragem?

Sucedem-se noites abatidas num quarto turvo, onde finjo que te contenho na adrenalina de uma transpiração. Contos efémeros, incapazes de desmascarar esta ficção persistente. A verdade é que nunca mais os meus olhos alcançaram paisagem igual à curva dos teus lábios. Eu bem tento ver poemas noutros rostos, procuro verbos entrelaçados em prosas líricas em cada corpo despido. Mas são só isso mesmo, corpos despidos. Chega para a necessidade do orgasmo, mas não chega para a urgência do amor. São corpos que se despem e se consomem sim, mas não vestem o peito nem alimentam a alma. São apenas contornos opacos, aventuras veladas nas revoluções de uma fome que não morre sem ti.

Passo por entre as brasas, vultos incendiários, meras labaredas de desejo. É sexo apenas, e sexo apenas não preenche, esvazia. Sai-nos a necessidade toda em suor, sobra-nos a vontade toda do amor. E não temos nada, se ficamos nisso. Se continuamos a deixar o amor mal fodido, ele fode-nos com maior violência. E repete a penetração, impiedoso, a relembrar-nos que está lá, só para nos dizer ausente. Mas nós ignoramos, como se ele não fosse tudo, como se não nos faltasse tudo se nos falta. E ele falta-me, se tu me faltas.

Todos os gemidos que crescem na noite soam ao teu nome. Em todas as camas, tu. E tu em todas as outras. Mulheres que uso, mulheres que me usam também. Somos todos pecadores para não sermos defuntos, mas, nesta fuga para a frente, já o somos e a cova é mais um corpo suado sem amor onde me deito, falecido, a apodrecer para a vida. São elas que consumo e que me consomem, num faz de conta a enganar a fome. Mulheres por onde passo à procura de um vestígio teu. Moras em todas, não morando em nenhuma. Paradoxos que me pregam a ti. Incompletas jornadas de pecado, se o pecado maior não se comete.

A cada mulher que me entrego, minto. Minto-me. Só lhes dou a tangibilidade do que sou. E nem isso, agora que penso nisso. Elas ficam com a sombra, tu tens o que lhe dá forma. A cada orgasmo que passa, mais um prego fundo a lacerar o músculo. És tu e o amor que nos fode. Não se promete que se ama para sempre, mas, foda-se, amo-te desde sempre. E sabes o quanto a carne é fraca, lá onde o sexo se desencontra do amor. A dor é maior que o que transpiro, quando te transpiro noutras, e sei que o prazer é um fósforo que se apaga no sopro da realidade. A puta da realidade.

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