Viver é outra coisa

Queria a quantidade certa de coragem para abrir os braços sobre o incerto, uma dose incerta de bravura para esticar as pernas sobre o vazio. Queria a força de mil homens cegos, de mil homens surdos, de mil homens mudos. Queria não ver, não ouvir, não falar. Queria sentir nada, sentindo tudo. Queria uma propositada e necessária ausência de estímulos supérfluos.

Queria ter demasiada fome, um apetite voraz tão grande que não tivesse sequer discernimento ou lucidez. Uma fome insaciável, que não me segurasse mais o corpo, ao ponto de arriscar dançar a melodia imprudente do perigo. Queria não saber que ele existe ou, mesmo sabendo-o, rir da sua frágil tentativa de bloqueio. Queria ser todas as tempestades de inverno e mover oceanos, refazer todos os mapas, refundar todas as terras e dar-lhes novos nomes, inventar-lhes outros nomes, nomes que não existem, que não se escrevem, que não se falam ainda. Queria ser dono e senhor de mim e de tudo o que me prende. Queria uma insana vontade de liberdade absoluta.

Queria poder perder tudo. Queria poder mentir-me e sair de mim até me encontrar noutro alguém que não mora aqui. Queria a capacidade da loucura desmedida, uma desgarrada sensação de que sou capaz. Mas não sou. Não sou. Porque vejo, oiço e falo. Porque sinto, porque amo e ainda assim não voo. Porque temo. Porque debaixo da pele se ergueu um cemitério de todas as quimeras de infância. Porque a vida é coisa de bravos e loucos e a mim faltou-me ter medo de não viver.

vivereoutracoisa_obohemio

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