Um sopro e a vida recomeça

Anoiteceu. Toquei na ferida, quis sangrar o que ficou para trás. Passei os dedos pela origem, vi a memória do que já não sou, para onde já não vou. Em cada pedaço de lágrima, havia um punho fechado a bater lá dentro. Esmagou-me a madrugada no peito. Suspirou uma réstia do que era.

Um sopro e a vida recomeça. Adormeço o tempo numa nuvem de regeneração. Sou tempestade que arranca as raízes do que fui. Nos ombros carrego a ousadia de subir ao alto do céu, como uma criança empoleirada nas estrelas.

Amanheceu. Sou um canto de ave, a possibilidade de uma ponta afiada de sol a rasgar a consciência. Tenho nos pés a vontade transformadora do vento e um nascer sem ontem. Tropeço em arco-íris e troco as cores do mundo. Vou desconhecido, com a imortalidade nas mãos e a força para abraçar o início. Acrescento-me em cada viela, sou um livro inteiro por escrever. Já sei dos precipícios da alma. Corro descalço pelas horas todas que me cabem nas veias e sangro.

Anoiteceu. Há uma dor que me diz que morri. Há uma ferida que me diz que vivi. E uma cicatriz que me diz que renasci.

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