Um nada que tem tudo

Saudade. Essa palavra que só existe na língua portuguesa e que nos acorrenta a um sentimento apenas tangível por dentro, apenas traduzível na carne que se recolhe do hoje para tocar o ontem.

Ah povo fadista, entristecido, sonhador aprisionado ao passado. Povo tão soturno e prostrado, capaz de ilustrar numa só palavra o nada que fica depois de tudo diluir… Vão-se os olhares e os sorrisos que chegavam de manhã e demoravam sem pressa, presos à janela do tempo que corria sem se ver. Sem querer, apagam-se promessas e segredos confidenciados entre alucinações sem fim.

Saudade. Esse desejo inconsequente de que o passado fosse tudo o que ainda falta acontecer.

Abatidos os corpos agora distantes, naufragam baladas entre ondas de ilusão que se quis verdade sem saber que tudo vai. Tudo cai na gravidade de um mundo imponente na impotência do momento e desmoronam-se lembranças em queda livre. Tudo sai de nós e tudo vai assim, de repente, sem aviso, sem marcação, sem o aconchego de um sinal. Nada nos guia e depois tudo nos perde. E assim, do tudo se faz nada e do nada ficam coisas pesadas demais para seguirem na viagem.

Saudade. A melodia da memória nas danças do tempo, a música de outrora a dizer-nos que houve o momento que valeu a pena.

Vão-se os abraços e os beijos que iam alimentando sonhos agora dispersos pelo chão. Tremem as pálpebras, dilatam-se as pupilas e escurece mais um dia. Vão-se as mensagens só porque sim e as chamadas só porque não. Vão-se os planos e os “amo-te”, vão-se os “bom dia” e os “boa noite”, morrem os “até amanhã” e os “para sempre”. Fica um “até sempre” mascarado de “adeus”, arrancado das tábuas apodrecidas por vozes humedecidas nas danças do passado.

Saudade. Seca-se o verbo e enterram-se todas as palavras que se disseram em vão. Foram-se todas, resta apenas uma. E assim, do nada, tudo volta de novo e tudo fica para sempre. E hoje preferia não ser português, talvez assim não soubesse o que era isso da saudade.

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