Talvez sejamos só indefinições

As pessoas não são porque sim ou porque não. São porque não sei, são porque talvez. E ser talvez é ser indecisão e seres uma indecisão é o pior que podes fazer a ti próprio. Ser talvez é o plágio das incertezas todas que te encurtam a alma. Uma indefinição constante, iludida de que se é alguma coisa para além do nada. Um zero absoluto, cercado de tudo o que não és por receio de errar. Imóvel, num pavor pelo engano. Habitado pela assombração da probabilidade certa do fracasso. Ser talvez é não tentar. Não andar para não escorregar, ficar ou ir ficando. Parado, quietinho porque senão ainda acertas. E depois, como é que vamos ter o descaramento de sair por aí, a incomodar os outros com um estandarte de felicidade?

Ser talvez é um zero, daqueles que atravessam para o lado esquerdo da vida. Dizes-me que o zero também é número e eu concordo. Mas nisto de contar para alguma coisa, o zero não participa, nem sequer está interessado em adições. Não acrescenta, não soma. É uma foice que anula a multiplicação. Ser talvez é uma nulidade. A indecisão é uma lâmina a cortar-te o pulso de uma ponta à outra. Não vives, vais secando numa sangria lenta até ao final dos teus dias. Não morres, vais morrendo. E essa é, talvez, a pior de todas as mortes.

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