O que fica depois da montanha

Uma montanha. Era assim que o viam, aqueles a quem ele não se deixava ver. Era essa a paisagem, nada mais para lá disso. Pedra dura, insensível, intransponível. Seriam necessários muitos homens e máquinas para abrir uma fenda. Permanecia sereno, a tolerar a tolerância dos outros, num sentido contrário ao sentido dos outros, num sentimento contrário ao sentir do relógio.

O que ele queria era ter sido menino para sempre, mas disseram-lhe que viver era crescer. Desobedeceu o quanto lhe foi possível, mas era inevitável como a sombra num deserto. Cresceu, por fora e por dentro. Fez-se homem no meio dos outros. Mas levou consigo o menino, para o caso de estarem todos errados e, afinal, ser possível continuar a ver o mundo com a incerteza que espicaça a descoberta. Era isso que ele queria, mais do que conformar-se que as coisas são como são, mais do que guardar a curiosidade nos bolsos, mais do que ser engolido pela tolerância mascarada de indolência.

Tolerar é continuar em frente, no lado oposto da rua. Aceitar o caminho do outro, mantendo a convicção de que o nosso será melhor. Ele queria atravessar a estrada, sentir-se nos outros, percebê-los, sê-los. Não tolerava nada, vivia e acedia à possibilidade, igualmente bela, de outros viveres distintos. Era uma montanha com a natureza dentro. Numa mesa de esplanada, escreveu um dia: “Aqui, por onde passam os tolerantes desconhecidos, conheci todos. Aqui, a ver, sentir e compreender os outros, fui todos. Aqui, onde a tolerância morreu e a igualdade nasceu, aprendi a ser todos, aprendi a ser eu.”

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