No rescaldo da despedida

Agora que tu foste, diz-me o que faço connosco? Porque tens esta capacidade irritante de seres tudo o que me faz respirar e seres tudo o que me corta a respiração? E o pior disto tudo é que esqueci-me de avisar o mundo que despedida nenhuma te remove de mim. Adeus nenhum dissolve as cores do céu no teu rosto. Distância nenhuma cicatriza as marcas da tua presença a escorrer pela minha pele a reclamar a tua. Como vidros que piso para te sangrar, olhos que fecho para te ver, mãos que recolho para te sentir. E o pior disto tudo é que sinto, como uma mistura de crença e álcool, na dança inebriante da lua. Vou, a acertar o passo para sincronizar o meu ritmo no teu. Mas tu já não danças neste compasso. E tenho a certeza absoluta que só foste para ficares em mim. Tu és assim, gostas de dilatar a loucura e multiplica-la pelos quilómetros que ampliam a vontade dos teus braços.

Tu foste, e eu esqueci-me de avisar o mundo que não se parte um corpo ao meio sem o matar. Que o clamor da madrugada despida é a alvorada de uma vida pela metade. Esqueci-me de referir que o momento em que vais é o instante em que deixo de ser. Esqueci-me de declarar ao mundo que o meu mundo cabe todo num lugar à janela de um avião que nos leva. E o pior disto tudo é que esqueci-me de te avisar que a felicidade cabe toda no segundo em que te abraço. Devia ser proibido levares a minha felicidade para tão longe, sabias? Se eu proibisse alguma coisa, proibia, sem dúvida, a tua ausência. É que não há outra forma de viver a não ser com os teus olhos nos meus.

Como é que fui capaz de pensar que existia vida antes de ti? Ingenuidade da ignorância de quem subsiste no escuro, a julgar que é suposto a sombra ser a luz. Não via mais nada além do escuro, agora não vejo mais nada além de ti. Existirá algum dia uma lei que proíba as despedidas ou que obrigue os regressos? Existe. Os loucos chamam-lhe amor, os outros, loucura. Não estaremos todos a falar do mesmo? Ninguém se entende, a não ser quem a sente. E o pior disto tudo é que sinto, como uma alucinação mutável entre a memória e a realidade. E o pior disto tudo é que a lei foi revogada e tu foste, para sempre. E o pior disto tudo é que tu és, para sempre. Agora, sobra um banco pregado no jardim da esperança, uma paisagem acorrentada a uma transição lenta entre o que fomos e o que somos. Até que retornes, até que a loucura se entorne, e que sejas tu a certeza de todos os meus dias seguintes.

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