Nas algemas da vergonha

Hoje, tal como ontem, quis dizer-te que roubava o mundo, e mais um planeta ou outro, só para ter a possibilidade da tua pele. Mas as palavras não saíram do sítio onde se foram esconder, onde tu te foste esconder. Tive aquele receio estúpido que me fugisses assim que soubesses que não sou eu sem o teu toque, sem os teus lábios, sem essas coisas todas que te fazem ser tudo.

Isto de falar que preciso mais de ti do que a lua precisa da terra, é tramado. Isto de despir todas as minhas capas e deixar-te ver-me nu, só eu e um lampejo teu do lado esquerdo do peito, é lixado. Sem proteção contra a investida violenta da tua presença por dentro, ainda morro. Um género de afogamento entre as nuvens. Porque isto de dizer-te é desamparar-me em pleno voo. E fico só eu, e depois tu, refletida nas águas do meu abismo, a cair sem rede.

Vai-se lá saber porquê, se o que se sente é tão mais forte do que o que se diz e ainda sufocamos nisto de guardarmos tudo, num estrangulamento da vulnerabilidade crua. Uma imagem em bruto da essência do que sou, exposta como arte de rua, para ser observada e depois condenada na prepotência da multidão, que não sabe que amar é tirar a censura toda do corpo e descobrir quem somos. E eu sei lá porquê, se o que não te digo já me ocupa tudo, numa sobrelotação de espaço e tempo que tenho para te sentir. Mais valia dizer-te, não é? Antes que isto acabe e as coisas sequem por não ter sido capaz de irrigar as cerejeiras em flor do teu abraço.

E nesta paralisia do pudor, hoje, tal como ontem, quis contar-te que não existe nada aqui se tu não estás e quis ir ter connosco. Deu-me vontade de correr para ti e entregar-te todas as noites solitárias que carrego, seladas dentro de um beijo. Quis que fossemos esse beijo e nos desmoronássemos, para fora deste calabouço que nos mantém encarcerados a tudo o que não somos. Hoje, tal como ontem, quis dizer-te que sinto a tua falta em todos os cantos onde te encontro. Hoje, tal como ontem, quis falar contigo e confessar que ainda te demoras em mim. Só que as malditas palavras fizeram-se muralha erguida em pedra de basalto. Vulcões de vergonha inflexível que recusam soltar-se da minha boca. Só que hoje, mais do que ontem, as palavras saltaram-me dos olhos.

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