Ilusória perfeição

A perfeição é inteira na soma de cada pedaço imperfeito.

Só porque vês a rosa aprumada, arrumada numa jarra de cristal, a água translúcida, as gotas cuidadosamente repousadas sobre as pétalas, o vermelho rubro suspenso sobre um verde liso, imaculada numa beleza doutrinada, dizes que é perfeita. Nem a transparência da jarra, da água, do momento lúcido em que a claridade revela os golpes, te permite olhar o que já lá não está, o que dela já lá não vive. Está claro, menos para os teus olhos, prisioneiros dos conceitos plásticos que te dizem ser completo o que é fabricado.

Vês a moldura, a peça de decoração depois da cirurgia. Vês à distância da origem, onde a essência se adulterou. Vês o disfarce, a cosmética, o que resta, e dizes que é bela a natureza das coisas que perderam a natureza nas mãos dos homens. Não olhas que a beleza foi limada. Um polimento que foi cortando a verdade. Vês o imediato e julgas que está inteira. Nas simetrias maquinistas das revistas e passadeiras vermelhas, cegou-te a mesma cor que vês maquilhada a boiar naquela jarra. Fez-se de escuridão berrante esse teu perfeito. Ignoras que cada espinho desalinhado era seu, era ela, toda ela, em cada pedaço nativo que condenaste de defeito.

A perfeição é um lugar feito à medida de cada um, um terreno irregular e vasto, onde cabem as mais belas imperfeições. Deixa de ver e olha agora cada pétala que cai. São lamentos silenciosos de quem perdeu o céu em troca de uma ilusória perfeição. Agora, diz-me, vale a pena tanta pétala no chão?

 

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