Até amanhã, esperança

A vida é uma seca sem ti. Uma devastação de gestos simbióticos atirados ao chão. Uma pastagem de poeira numa desolação de coisas que se estragam na espera. Tudo tem validade para o consumo, exceto a vontade da tua pele. Mas ela não está. Ela não espera, e eu, que espero tanto? Tudo são ruínas do que fomos e eu só quero ser, ter e saber-te em mim. Quero-te aqui e não sei como querer-te de outra forma. Quero-te aqui e não quero querer-te de outra forma.

A vida é uma seca sem ti. Destroços a amontarem-se no alpendre do futuro, cinzas do passado a salpicarem névoas no presente. E o passado é sempre cinza, e o passado salpica sempre. Acalenta e queima. Dói-nos antes, agora e depois também. E o futuro é sempre nada, e o futuro preenche o nunca. Nem o tempo reside no que não existe, só o vazio das coisas que não nasceram. Um vácuo a estrangular-nos o presente onde não estás.

A vida é uma seca sem ti. Num quadro de sangue, registo o teu óbito repentino. As palavras são feitas de carne, cruas e viscerais. Pingam as frases todas que queriam desfazer-se da escassez dos teus lábios. Voluptuosos contos de fadas. Estendo o que ainda me és num jazigo de pérolas formadas pela decomposição da razão. As flores endurecem no pensamento e caiem pétalas onde outrora se ateavam os montes de vermelho rubro.

A vida é uma seca sem ti. Acontece uma gota desamparada no rosto e escorre o teu sabor coberto da cor da crença. A tua falta é feita de sal. Sabe ao sítio onde os rios se fazem mar, onde a realidade desagua e eu me afogo. Encrostada no parapeito do coração, descansa uma lápide com o teu nome. E não mais te sopram nas cortinas do quarto. Quem foi que me levou o vento?

A vida é uma seca sem ti. Só os lençóis ainda gritam o teu cheiro. E o teu sabor? A fazer-se maior que os oceanos. Mais profundo e depois mais alto, como uma onda de céu, uma rebentação de paraíso. Para onde foi tudo isso? Para onde foste com tudo isso? Para onde fomos depois disso? Onde estamos sem isso?

A vida é uma seca sem ti. Um desejo clandestino a esculpir o areal desta praia secreta. Que de tão secreta se esqueceu de nós. Sei agora que não me és, a não ser por dentro. Apagaram-me os olhos, amor. Apagaram-me os olhos em amor. Vejo o que sou, um escuro deserto. Faz frio, quando o corpo se destapa do teu. Fecho o sol, porque a luz já me cega a verdade. Até amanhã, esperança.

ateamanhaesperanca_obohemio

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