As noites são putas do amor

Amo todas as noites que vieram visitar-me e amarei todas as que estão a caminho. Amo as noites, porque nelas respiro inteiro. Não têm a indiferença dos dias, demasiado preocupados nas suas rotinas. Amo as noites, porque as noites acontecem para amar. As noites são putas do amor que, por pena das almas angustiadas, se deitam com todos os perdidos que a elas se entregam. São um perfume de tentação que mascara a impetuosidade com que desferem o golpe da despedida. Ampliam todos os sentidos, despertam todas as sensibilidades, envolvem-nos em todos os vícios e depois desaparecem sem, tão pouco, um bilhetinho na almofada:

“Adeus, que não fui feita para a rotineira dos teus dias.”

Era o mínimo, depois de se permitirem ser amadas. Demitem-se das suas responsabilidades mas, ainda assim, são cuidadosas, porque certificam-se de que adormecemos antes de as vermos partir. Por isso, mentiria se não dissesse que foram lindas todas as noites que se despiram para mim. Principalmente aquelas que vieram com vontade de demorar e acabaram por ficar. Mas outras houve que foram umas putas do pior. Nem putas foram, aliás. Chamo-lhes rameiras, para não lhes conceder honras que não merecem. Há noites que são umas autênticas rameiras, que chegam para dizer que tudo acaba e, com frieza, anunciam manhãs geladas. Recordo, por exemplo, o alerta meteorológico na noite em que me deixaste:

Previsão para amanhã – Descida acentuada de temperatura com forte probabilidade de queda de granizo.

E, assim, se despediu a noite que semeou inverno nos meus dias todos sem ti.

asnoitessaoputasdoamor_obohemio

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