A mulher que habita em ti

É num crescendo que apareces e já começas enorme. Trazes nos saltos a sinfonia de uma noite de verão, um bater de onda nos cabelos e uma brisa de mar vestida no corpo. No olhar há todas as promessas desconcertantes do universo, e é para lá dele que guardas a fatalidade dos homens.

Flutuas como uma folha errante no dorso do vento. Vais elevada sobre a terra seca de ontem, com o passado às costas, a sorrir para o amanhã que vier. Ele que venha, ele que chegue, que depois logo vês como lhe falas. Pesas as decisões para que elas não te pesem, e, sem dares por isso, já és tu que te pesas. És o templo da incerteza, indefinição de cristal, num complexo de cartas fora do baralho, mas bem alinhadas com os astros. Queres misturar-te com o azul e dar-lhe um novo tom. Aceitas que nem tudo se muda e mudas-te tu.

Sustentas um coração desarrumado por todos os que não foram capazes de ti. Fechaste o cofre. Enterraste-o numa camada de gelo e teceste uma teia intrincada de sensibilidade, por onde se enrolam as fases de um sentir pensando como se sente. Indecifrável, para quem falta a competência de conhecer a verdade com a ponta dos dedos. E nem a chuva te molda, e nem o sol te queima, se tu o queimas numa chama maior.

És mulher na pele e menina rebelde no peito. A inquietação no núcleo do furacão, numa trepidação que se afunda nos pulsos e eclode na boca. Dizes tudo o que não sentes, sentes tudo o que não dizes. Mas pensas e falas das coisas que saboreias com a mente. E a falar és poesia, e a pensar és diamante. Impossível de lapidar para as mãos grosseiras dos que não te sabem, mesmo que te provem. E poucos te provam, nenhum te sabe, e ninguém te segura.

No balanço de anca, danças com a única certeza que tens – o amor nasce num lugar perto dos olhos, onde as palavras se acabam. Mas tens medos, receios de anseios. Tens medo da água a molhar-te os pés, vinda de dentro. Tens receio do gelo que se faz líquido viscoso, quando, numa colisão incandescente, se ateia um fogo incontrolável. Inexplicável ardor. Derretes, sem querer ou sem perceber de onde. E vives. E depois foges, com a mesma velocidade da luz que te estilhaçou. Fragmento a fragmento, desfragmentas e reconstróis-te, as vezes que forem precisas. Até não ser mais preciso o frio da pedra que te defende do que mais precisas, do que mais anseias. E o que precisas? E o que anseias? Que te vejam nua das tuas muralhas. O segredo mais belo de se ver.

É que ninguém sabe do que és feita, se só te veem do lado de fora. E tens o desejo da descoberta do que fica depois do gelo – um oceano profundo, oculto aos que nunca souberam escutar a melodia das suas marés. Navegar em ti é tocar a superfície, saber de ti é mergulhar. Mesmo correndo o risco de afogar, ou até por isso mesmo. E só na loucura existe a coragem de morrer em ti para sair vivo, como nunca. E só o amor te arranca para a vida, quando nele fazes crer a tua morte. E aí tu aconteces, como quem nunca teve receio de viver. E és, o veneno da liberdade, a maneira mais bela de morrer.

amulherquehabitaemti_obohemio

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